Transa a la Caetano

Agosto 27, 2008

“Triste Bahia, ó quão dessemelhante…”. “Bandeira branca enfiada em pau forte, bandeira branca enfiada em pau forte…”. O CD Transa, do Caetano é liiindo, como ele mesmo diz. E ao mesmo tempo é surreal, como ele também afirma sobre todas as coisas lindas e sempre com uma comicidade extrema, ou não, como ele falaria talvez. E tem aquela capa lindíssima, uma visão do tudo e do nada, do que é e do que não é, do que tenta ser e, talvez, consiga, sem meios termos, direta ao ponto, como se confundem suas palavras em toda e qualquer frase prolixa e, ao mesmo tempo, simples, humana, muito humana, que profere o mestre dos tropicalistas, o Caetano, que é ele mesmo sempre, muito doido, muito liiindo, muito surreal, muito de uma expressão sincera do povo brasileiro. “It’s a long road, it’s a long and widing road”, avisa o bicho-grilo, lá em 1972, quando o hippie estava em alta, e tudo era liiiiiiindo, surreal e maravilhosamente simples e singelo, só porque “no Abaeté tem uma lagoa escura arrodeada de areia branca, ô, de areia branca, ô de areia branca, ô de areia, ô de areia, ô de areia…” . É Candeia, com “mora na filosfia”, é bossa, é lamento nordestino, é o mais baiano de todos cantando em um inglês londrino obtido em anos de exílio, liiiiindo, tudo mescladamente liiiiiiindo. “Pra que rimar amor e dor?” Caetano também faz chorar e sabe como poucos ironizar, mesmo com tanta prolixidade. E alcança o gosto das gentes todas, dessas que sobem o morro, que cantam em seus apartamentos, que já foram a Londres, que já ouviram falar na Europa, que escrevem, que fumam maconha, que já foram à universidade, que sonham entender o que um sotaque inglês baiano está querendo dizer. “That’s what rock and roll is all about”. Ou não (eu tinha que terminar assim. Sorry, Caê).

Manhã cinza

Agosto 23, 2008

Os dias cinzas me deixam com nuvens na cabeça. O ar fica mais pesado, as idéias se concentram e se fundem e acabam me deixando meio maluca. Aí eu sento no computador e vomito algumas delas pra me desfazer um pouco dessa confusão toda.

 

Sonhei algumas coisas bizarras essa noite, como aulas de cursinho, professor com quatro dedos e longos cabelos e expulsão do colégio. Vai saber!

 

Da janela do meu quarto, vejo um mundo estático. Nada acontece nessa manhã de sábado. Não há movimentação nos apartamentos. Parece que Joinville inteira está de ressaca.

 

Tem um gato dormindo na minha cama – pra variar – e ele também, assim como toda a cidade, parece ter curtido uma noitada calorosa.

 

Chequei o saldo no banco e isso me entristeceu. Sempre tenho menos do que imagino. Coisa chata!

 

Ontem vi umas fotos tiradas essa semana ainda e me vi dez quilos mais gorda. Às vezes acho que tenho uma imagem mais bonita de mim do que a realidade afirma. Geralmente é o contrário, não? Pois isso também me deixou chateada. E eu comi dois pratos de sopa de capeletti com pão. Vai entender!

 

Ontem também fugi de um chá de lingerie de uma antiga amiga. Tudo tão esquisito, gente desconhecida, as conhecidas já não são as mesmas. Ou melhor, quem não é a mesma, definitivamente, sou eu. Graças a Deus!

 

Um movimento! Acabo de ver uma pena subindo com o vento.

CAIA EM SI, TATUÍ

Agosto 17, 2008

Estou super viciada na música “Tatuí”, do 3 na Massa, um projeto bem maluco que conta com músicas interpretadas sensualmente por mulheres cantoras, como a Céu, a Pitty e a Thalma de Freitas. Elas sussurram, gemem e simulam atos sexuais, enquanto dão voz a composições masculinas. O álbum, A Confraria das Sedutoras, é produzido por nações zumbis e um outro cara.

A música Tatuí é a coisinha mais querida, composta pelo Rodrigo Amarante (ex-futuro-hermano que eu adoro) e interpretada pela namorada dele, a Karine Carvalho, uma atriz que já fez umas aparições em novelas globais nos anos 90. Pra ser sincera, eu não gostei muito do clipe, mas a música vale muito a pena, é toda suavezinha, fofinha e tem aqueles acordezinhos meio caribenhos da guitarra do Amarante…

- Cris, você vai visitar a produção de frangos, você vai se vestir de funcionária e vai passar um dia no abate.

- (Glurp).

- Tenho a lhe dizer que a estrada é longa e que o local fica distante do centro da cidade.

- Ok, posso lidar com isso.

 

                            

 

- Puta merda, essa estrada não vai a lugar nenhum, o que vejo são pessoas capinando e cachorros tomando conta da porra toda.

 

                          ….

 

(A estrada acaba. Uma bifurcação que parece, em ambas as direções, ir a lugar nenhum, se mostra diante de meus olhos. Volto. Encontro uma empresa.)

 

- Por favor, seu guarda, como se chega a tal lugar?

- Volte tudo que você andou e vire à esquerda. Siga reto. Toda vida.

 

                              

 

- Bom dia. Lindo dia para visitar a galinhada sendo degolada, não?

- É, lindo dia. Você vai amar. É muito legal,

- (…)

- Primeiro, vista essa meia gigante e grossa por cima da sua calça. Agora, tome, essa é uma calça tamanho M. Tem o dobro da sua estatura, mas acho que vai dar. Agora, coloque esse moleton gigante, que é o menor que temos. Depois, insira esta touca na sua cabeça. Tire brincos, anéis e piercing. Por cima da touca, coloque esse turbante medonho e, ainda em cima, essa proteção de ouvidos, parecida com um fone de radialista. Laranja. Coloque também essa proteção para sua boca e nariz. Por cima da meia, coloque essa galocha cinco vezes maior que o seu pé. Por fim, vista esse jaleco assim que chegarmos à produção. Desculpe não termos uniformes para crianças. E, cuidado, você pode contaminar o ambiente.

- (E o ambiente? Não pode me contaminar?)

- Fique assim, como um bujão com a capa gigantesca. E prepare-se para a nossa longa caminhada.

- Obrigada, você é um amor.

 

                                

 

(muitos e muitos passos depois)

- Cris, aqui, neste lugar gelado, é a produção. Todas essas pessoas passam o dia inteiro tirando as partes do frango. Vamos fazer o caminho contrário. Primeiro, vamos ver a rapaziada ser destroçada pra virar partes gostosas no seu prato. Depois, vamos ver como a galinhada morre. É normal, todo mundo morre, certo?

- Claro.

- Ah, tem um detalhe. Como exportamos para o Oriente Médio, seu Mohamed aqui fiscaliza tudo, pra ver se as galinhas estão morrendo da maneira certa, sem stress, do jeito que Maomé prega.

- Claro. (Por que esse povo não é vegetariano de uma vez?)

- Bom, ali temos o local onde nossos funcionários islâmicos rezam todos os dias. Rezam pelos frangos, pra que suas almas fiquem bem.

- Normal, né?

- É, bem normal.

- Eles só não nos deixam entrar ali. É um local sagrado.

- Ah, mais normal ainda.

- Sim, é tradição.

- Sei.

- Aqui ficam as câmaras frias, onde ficam armazenadas em caixas as partes dos nossos queridos animaizinhos. Vamos entrar?

- Ah, lógico. Depois de ficar na produção a 9 graus, 30 graus abaixo de zero eu não vou nem sentir.

- Então, Cris, aqui ficam as caixas, até bem lá em cima, todas armazenadas até que os pedidos sejam expedidos.

- (Brrrrr….)

- Venha mais pra cá, olha só quantas caixas.

- (Brrrrr…)

- Gelado aqui, né?

- (Brrrr…)

- Venha aqui, nesse local um pouco mais fresco, onde as partes não utilizadas são moídas para depois transformar-se em salsicha, hambúrguer e tudo mais.

- Então, o hambúrguer vem desse monte de tralha com aromatizantes?

- Isso mesmo.

- Hmmm, adoro hambúrguer de frango.

- Vamos lá pro abate então?

- Claro, sou doida pra conhecer o abate.

- Tem certeza que você não passa mal?

- Tenho, vejo abates de frango todos os dias.

- Então ta, porque se você passar mal, eles me matam.

- (?)

 

                                 

 

- Cris, caminhões desse tamanho estacionam aqui várias vezes ao dia. Os frangos ficam um tempo antes sem comer e num local ventilado, atochados em caixas e recebem um sprayzinho reconfortante, pra eles não sofrerem, sabe?

- Sei, deve ter um haxixe aí, né?

- …

- Brincadeirinha…

- Daí eles ficam nesses ganchos, ainda vivos, de cabeça pra baixo. Tudo pelo bem-estar animal, como a gente chama.

- Ah, legal. Ufa, que alívio que se preza pelo bem-estar deles.

- Em seguida, eles levam um choque na água, assim mesmo, de cabeça para baixo, e são degolados nessa maquininha aqui.

- Blé!

- Tudo pelo bem-estar animal.

- Arram.

- O cheiro não é muito agradável, né?

- Que é isso? Agradabelíssimo.

- E, bom, o resto você já sabe.

- Arram.

 

 

      …..

 

- Tchau, querida. Obrigada pela experiência inesquecível. Adorei!

- Estamos ai. Volte sempre.

- Vou voltar, pode deixar.

- Vamos qualquer dia, combinar um estrogonofe. De frango.

- Vamos, claro.

- Cuidado pra não se perder na estrada.

- Pode deixar!