Jantar romântico
Setembro 2, 2008
O casal estava lá, na pizzaria, aproveitando seu vinho chileno Carmenere, sua pizza vegetariana e seu namorico de domingo à noite. O local é aconchegante, de modo que os clientes podem sentar-se em um sofá e ler os periódicos do dia, da semana e o que mais lhes interessar. Móveis antigos por todos os lados, máquinas de costura, ferros de passar, caixas registradoras e outros apetrechos acabam por deixar o ambiente com um jeitinho vintage, bem do jeito que o casalzinho gosta, tudo bonitinho, arrumadinho e confortável.
Pois todo esse local moderno e saboroso conseguiu se transformar no palco de uma grande piada, gargalhada de maneira sutil, com olhares e bocas fechadas, quando um ser humano de tamanho avantajado – tanto vertical como horizontalmente – adentra o recinto e senta-se em uma mesa para apreciar uma refeição. O casal não pôde deixar de notar a presença de tal ser, posto que eram as duas mesas ocupadas do lugar.
O gigante pediu uma caipirinha e um chope para começar a sua jornada alimentícia. Em dois goles, foi-se o líquido amarelo. Em mais três, a vodka com limão e açúcar também sumiria do mapa. Seguiram-se mais duas caipirinhas e incontáveis chopes, todos mamados em segundos. O casal, muito contido, em um fim de fim de semana, entreolhava-se e procurava não permanecer olho no olho por muito tempo, a fim de evitar um ataque de riso provável. O brutamontes pede uma sopa.
Tabasco, muito tabasco mergulhado em muito líquido e pouco capelete. A criatura sua, fica vermelha, fala sozinha “Ta feio o negócio aqui” e bufa. Àquela altura, foi-se o romance do casal. O grande e vermelho ser toma conta do jantar e nem sequer repara a presença do casalzinho, inocentemente aflito com a presença de Godzilla.
Deve ser o décimo chope tomado em um gole. Acaba o copo e o ser, despreocupadamente à vontade, arranca o gás de tudo o que ingeriu em um só golpe bucal. A pizzaria chiquezinha, harmoniosa, é invadida pelo barulho incômodo de um arroto nada comedido. Mais olhares entre o casal. Talvez o medo de rir fosse mais forte dado o porte da criança.
Hora de pagar a conta. Levanta-se o gorilão de sua cadeira e segue rumo ao caixa. Os garçons se espiam. Os passos de Maguilla cravam o chão, ora pra frente, ora pra trás, ora quase indo ao chão. Mas, sem mais delongas e após um tempo de meditação alcoólica desequilibrada, a conta é paga.
Pronto. Segue o gigante à porta de saída. Respira a pizzaria aliviada, o bebum não causou problemas, comeu, bebeu, suou, falou, arrotou e se foi. Casalzinho volta ao conforto do namorico. Mas eis que os passos viram-se à esquerda e, um pra frente, dois pra trás, dois pra frente… levam o corpanzil até o sofá e suas publicações. Mas o que quereria ler em um domingo quase segunda um ser bêbado e bem alimentado, certamente com as entranhas fermentando? Ninguém sabia.
E ali aquela banha toda repousa. Os olhos semi-cerrados no meio de toda aquela vermelhidão do rosto percorrem as páginas do jornal de sábado. E, a dado momento, fecham-se totalmente. Brutus dormiu ali mesmo, no meio da pizzaria, sentado, e roncou adoidado, como se estivesse em casa, na frente da televisão ligada. O casal ali ficou, tentando retomar o romance ao som dos roncos frenéticos ouvidos também pelos empregados locais.
A garçonete tem uma boa idéia. Como quem não quer nada, toca a sineta. O gorilão se levanta e, sem mais nem menos, vai embora. O casal, cheio de amor, vai também.